Auto apresentação feita por Reynaldo Purim no Seminário em Louisville KY

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Foto número Memories 1A

Colônia Leta do Rio Novo,
Orleans, Santa Catarina

http://rionovo.wordpress.com

MEMÓRIAS DE UM MENINO DA ROÇA E DE SUA VIDA INTELECTUAL
(NOTAS AUTOBIOGRÁFICAS DE REYNALDO PURIM)

Tradução por J. R. Purin

Se Reynaldo Purim tivesse que empreender a tarefa de escrever uma autobiografia, ele teria que contar a história de sua vida a partir de suas aspirações intelectuais, que na história de sua mente houvesse alguma importante que valesse a pena para ser escrita. Mas ele faria assim pela razão de serem as aspirações de sua mente o centro e a força motora das atividades de sua vida.

Os pais de Reynaldo Purim vieram da Letônia para o Brasil há muitos anos atrás. A Letônia naquele tempo estava sob o controle da Rússia; agora é um país independente. Naquele tempo muitos letos imigraram, foram para o sul do Brasil e se instalaram em várias regiões do Estado de Santa Catarina. Os pais de Reynaldo Purim e muitos outros letos foram morar num lugar chamado Rio Novo. Eram florestas virgens sem nenhuma civilização. A mais próxima estação da estrada de ferro distava cerca de 12 milhas (12 km) de onde moravam, onde não havia nenhuma cidade nem vila. Os imigrantes compraram sítios e começaram a nova vida com muitas dificuldades. Eles foram os iniciadores de uma próspera colônia leta que tinha sido florescente até o presente. Os letos conservavam a sua língua e costumes na medida do possível sob as condições de um novo meio ambiente. Eles fundaram uma igreja e uma escola conforme os seus próprios ideais que tinham trazido da Letônia. Suas vidas estavam baseadas em mais elevados padrões que aqueles que havia em outras partes dos Estados do Brasil.

Reynaldo Purim nasceu nesta colônia leta, chamada Rio Novo, em 1897. Seus pais não tinham vida fácil e rica, mas conduziam-na em boas condições. O menino não sabia o que significava sofrer a necessidade de coisas materiais. Junto com seu pai e sua mãe trabalhava no pesado como os outros trabalhadores faziam e eles educavam seus filhos com o trabalho e como honrar o trabalho. Reinaldo muito cedo aprendeu a fazer os trabalhos como todos os meninos da comunidade faziam.

Reynaldo Purim herdou alguma inclinação intelectual do seu pai e de sua mãe. Entre seus parentes havia alguns indivíduos que tinham manifestado tendências e características intelectuais que Reynaldo Purim encontrou nele mesmo. Ele podia dizer que suas aspirações mentais eram herdadas por extensão. Seu pai não tinha muita escolaridade. Ele era um homem que pensava profunda e cuidadosamente antes de tomar alguma decisão. Era muito vagaroso em chegar às conclusões mais acuradas. A mãe de Reynaldo Purim tinha uma grande clareza e acurada compreensão das coisas como são e não como elas parecem ser. Sua mente era mais indutiva que dedutiva; ela geralmente pesquisava conclusões gerais baseadas sobre fatos por ela observados. A herança característica de Reynaldo Purim constitui uma complexa combinação de muitas características, encontradas em seus ancestrais, os quais manifestavam-se distintamente em certas circunstâncias.

Quando Reinaldo Purim estava com nove (9) anos de idade, sua mãe o matriculou na escola da comunidade e então ele começou sua vida escolar. Naquele tempo ele já estava apto para ler, escrever e fazer algumas operações aritméticas. Os colonos letos se preocupavam em ensinar estas coisas para seus filhos antes de serem mandados para a escola.

A escola onde Reynaldo Purim começou sua aprendizagem fora de casa, era dirigida por um professor autodidata e sem uma formação sistemática. Ele não conhecia nada acerca de princípios modernos de pedagogia. Ele tinha aprendido as coisas sem método e assim ele ensinava a seus alunos. Purim começou sua vida escolar aprendendo os princípios da gramática leta, aritmética, alemão e português. O método para o estudo da língua, se assim podemos chamar, era a memorização de vocabulário e fazer traduções do alemão e português para o leto e vice-versa. Na escola não havia método de ensino, mas havia um forte espírito de competição entre os alunos. Cada um queria avançar mais que os outros para alcançar a melhor nota e, em razão deste fato, havia um bom progresso. Muitas vezes Purim pedia para sua mãe em casa testá-lo na tarefa para o dia seguinte, assim ele poderia ter certeza de que realmente o sabia. Purim naquele tempo tinha muito boa memória e por esta razão podia memorizar vocabulários alemães ou portugueses sem dificuldades. Ele avançou no estudo do alemão mais do que o português, porque em casa o português era muito pouco conhecido e ninguém podia ajudá-lo na preparação das tarefas. Na solução de problemas de aritmética, Purim trabalhava lentamente e com concentração. Ele resolveu conhecer mais pelo treinamento que pelo uso de regras de memória sem muito raciocínio. O professor não tinha idéia acerca deste processo de aprendizado dos deveres de casa, e por esta razão ele manifestava insatisfação quando Purim não podia finalizar os problemas de aritmética tão rapidamente quanto os outros meninos. Purim encontrou estas dificuldades, mas não sabia a razão disto.

Purim estudou debaixo da direção deste professor cerca de três anos. Depois o professor mudou-se para outra colônia de letos no mesmo Estado e a escola foi fechada. Após alguns meses haviam chamado outro professor para assumir a direção da escola. Purim prosseguiu seus estudos durante um ano sob a direção de um novo professor. Este era um autodidata como o primeiro, mas tinha melhor experiência no ensino. Sua vantagem sobre o primeiro era o seu dom natural para escrever poesia e prosa. Além de ensinar, ele escrevia poemas e artigos para alguns jornais e revistas letãs publicadas na Letônia e nos Estados Unidos. Na escola ele dava muita atenção à escrita e composições. Purim encontrou muita atração nas tarefas de temas assim como descrições de coisas ou eventos sociais. Infelizmente Purim não pode estudar com este segundo professor mais do que um ano. Seu pai tinha que mandar outros filhos para a escola e Reinaldo tinha que deixar a escola uma vez que seus irmãos deveriam ir.

Enquanto Purim estava frequentando a escola, ele não estava consciente do seu interesse intelectual, porque sempre estava engajado nas tarefas da escola. Mas quando ele deixou a escola, começou a sentir necessidade de mais estudos. Ele tentou tomar lições pessoais à noite, duas ou três vezes por semana, mas este plano ele não pode levar por muito tempo.

Quando Purim estava com aproximadamente treze anos de idade, começou a ler livros de diversos assuntos. Os lares dos letos em geral são suficientemente supridos com bons livros e jornais e assim era também o lar de Purim. Ele tinha à disposição muitos livros nas línguas leta, alemã e alguns poucos em português. Purim gastava em leitura o máximo tempo que podia. Ele lia durante o período de recesso, à noite e no inverno levantava-se cedo para ler. Seu pai dizia às vezes que Reynaldo tinha gasto muita querosene com a lâmpada, porém ele não dizia isto seriamente, porque entendia que era a aspiração mental de seu filho.

Por aquele tempo Reynaldo Purim foi recebido como membro na União de Mocidade da igreja local. Esta organização possuía dois ou três mil livros que os membros podiam ler gratuitamente. Isto foi uma oportunidade para o rapaz obter novo material para ler. Naquele tempo Purim não tinha especial interesse em definido assunto; ele lia qualquer livro que podia obter. Biografias o impressionavam mais que outras leituras. Num período de cerca de um ano ele tinha lido livros de geografia e descrição sociais da Letônia, Palestina, Egito, Rússia, Suíça, Noruega e outros países. Ele estava um pouco familiarizado com as experiências dos imigrantes que foram da Europa para a América do Norte e encontraram uma nova vida no novo mundo. Purim leu com um especial interesse as biografias de Pieter Maritz e Dolf, dois heróis bôeres na guerra contra o Sulus e a Transilvânia e a república de Orange, na África do Sul. As biografias de James Garfield, Presidente dos Estados Unidos, e de Benjamim Franklin, o inventor de para-raios, inspirando coragem em Purim para realizar em sua vida algum grande ideal apesar de ser um simples sitiante. Além dos livros da Letônia, Purim lia algumas poesias de Goethe, Schiller e Heine. A influência germânica sobre o sitiante leto de Rio Novo era forte e construtiva. Os letos tiveram sempre boas relações com os colonos alemães que viviam perto de Rio Novo. Alguns letos assinavam jornais da Alemanha ou de cidades brasileiras como Porto Alegre e São Paulo. Além de literatura, os letos encomendavam da Alemanha instrumentos de música e outros artigos por causa de sua boa qualidade e baixos preços. Purim era constantemente influenciado pelo pensamento germânico. Ele tinha também grande simpatia pela posição de pregadores ingleses como Maclaren, Talmage e Spurgeon, cujos sermões e outros escritos tinham sido traduzidos para a língua leta. Purim não conhecia muito acerca dos Estados Unidos enquanto era menino. A única fonte de informação que ele tinha acerca dos Estados Unidos era de alguns jornais publicados em Chicago e Nova York, mas eles traziam especialmente notícias de movimentos religiosos entre os letos que viviam nos Estados Unidos e não davam uma idéia da vida nos Estados Unidos como um todo. O mais efetivo fator que desenvolveu a imaginação de Purim quando era um menino da roça, foi a leitura de um livro de astronomia. Era escrito num estilo descritivo e para a mente de pessoa comum. A idéia de infinito, o qual Purim não pode alcançar, o impressionou mais que alguma outra leitura. Até revelou-se a ele que tinha aplicada sua imaginação somente nas limitadas coisas e nunca tinha tido idéias que eram grandes demais para sua mente. Daquele tempo em diante, Purim passou a ter um interesse especial por coisas que apelam para a mais alta imaginação e pensamento, assim como as causas primárias e os últimos fins ou propósitos das coisas. Enquanto Purim era um rapaz vivendo na roça, ele era afetado por muitas influências intelectuais complexas e de muitos pontos de vista. Ele não tinha específico interesse; ele lia todos os assuntos com mais ou menos igual interesse.

Quando Purim alcançou a idade de aproximadamente quinze (15) anos, aconteceu a mudança na sua vida intelectual. Ele perdeu interesse por leitura de livros sem propósito definido. Ele começou a pensar a respeito do que devia ser ou que fazer durante a vida. O problema de sua carreira era prioritária. Sua mente estava aberta e procurando algo definitivo invés de algo indefinido. O irmão de sua mãe, que era um jornalista por conta própria e diretor de um jornal diário em alemão na cidade de São Paulo, queria que Purim se tornasse um jornalista como ele. A princípio o rapaz sentiu alguma atração para aquela carreira. Ele começou a escrever descrições de eventos sociais, de costumes etc. e o enviou para Riga, Letônia, para publicação. Ele teve grande alegria quando viu algum de seus escritos publicados no jornal da Letônia “Avots” (que quer dizer ‘fonte’), e ele pensou em ser mesmo um jornalista. Mas depois de algumas reflexões, Purim não gostou muito da vida de jornalista como a de seu tio. Ele não gostou das muitas discussões e assuntos polêmicos acerca da política nacional e internacional na qual seu tio estava engajado. Em 1914, quando a Grande Guerra começou, os jornais alemães eram publicados com muita dificuldade e debaixo de severo controle do governo. Todas estas coisas levaram Purim a desistir da idéia de se tornar um jornalista.

Naquele tempo a Igreja Batista de Rio Novo chamou um novo pastor, um homem procedente do Colégio e Seminário Batista do Rio de Janeiro. Ele sugeriu que Purim deveria ir para a escola de onde ele tinha vindo. O jovem ficou muito interessado neste novo plano. O pastor falou com o pai de Purim acerca deste assunto. Ele apresentou algumas objeções por razões financeiras e que o filho não tinha idade suficiente para cuidar de si mesmo em um novo meio ambiente. Mas finalmente ele disse que cada idéia poderia ser colocada em prática algum tempo mais tarde. Esperando pela possibilidade de ir à escola, Purim estava com cerca de 17 anos de idade. Sua memória não era tão boa como tinha aos 12 anos. Ele fez todos os esforços possíveis para adquirir mais conhecimento do português. Ele estudou cerca de um ano e adquiriu um bom conhecimento de leitura daquela língua.

Assim chegou a mudança na vida da igreja, a qual Purim sentiu mais que algum outro. O pastor foi chamado para outro Estado e Purim ficou sozinho sem alguma ajuda para os seus estudos. Ele nunca tinha tido muitos amigos porque suas aspirações eram diferentes daquelas dos outros rapazes. Assim é que ele relembra que tinha somente dois amigos entre os jovens da comunidade com os quais ele podia manter amizade, porque eles tinham mais ou menos os mesmos interesses intelectuais. Os outros não eram inimigos nem amigos, porém especialmente como estrangeiros porque seus interesses eram por coisas que não apelavam muito para ele. Todavia Purim sentia a separação do pastor mais que qualquer outro na comunidade, porque ele era o único amigo interessado na sua melhor formação.

Depois de um tempo de considerações, Purim decidiu assumir por si mesmo que devia realizar seu ideal de obter melhor formação. Ele tinha já decidido sua carreira na vida: sua vida deveria ser gasta no trabalho pastoral. Ele queria mais preparo para um definido propósito. Ele apelou para sua mãe e pai por permissão e meios para que pudesse ir ao Colégio e Seminário Batista do Rio de Janeiro. Os pais de Purim viam que seu filho tinha um definido propósito em sua vida, por isso deram-lhe permissão para ir à escola e prometeram sustentá-lo financeiramente. Purim ficou muito feliz quando alcançou esta vitória. Não foi muito fácil tomar esta resolução porque significava separação de seu lar por um longo tempo, porém ele não hesitou em ir em frente para a realização de seu propósito. Em 20 de fevereiro de 1917, Purim deixou seu lar e a vida na roça e foi para o Colégio e Seminário do Rio de Janeiro.

R. Purim – 9 de dezembro de 1927.



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